96 anos
cartinha 56
Eu queria escrever sobre a minha avó.
Mas eu não sei bem por onde começar. minha avó era gigante (mesmo sendo pequenina nos últimos anos) e ocupava e sempre vai ocupar, um espaço enorme na minha vida. Que privilégio ter convivido por quase 46 anos com dona Leda, Ledão, vovó, bisa.
Minha avó faleceu dia 3 de dezembro, dormindo, aos 96 anos. Uma morte tranquila, com o filho e a cuidadora próximos dela. Ela teve 3 cuidadoras nos últimos anos e as 3 estavam no velório, chorando e se abraçando.
Eu sinto saudade dela. Eu a vi 2 semanas antes dela falecer, mas sinto falta dela faz 6 anos, quando ela ainda era ativa, independente, dona de loja, forte. A idade avançada e a pandemia, esse marco na vida de todo mundo, levou a vitalidade da minha vó.
A porta da casa da vó estava sempre aberta, ela só trancava à noite. Cidade do interior, outro tipo de vida. As pessoas entravam e saíam da casa, ninguém batia ou tocava campainha. Amigos, parentes, vizinhos, ela nunca ficava vazia. Minha avó era uma pessoa reservada, ela não falava muito de si mesma, mas ela ouvia. Havia algo de forte nela, algo acolhedor, porque as pessoas se sentiam à vontade pra entrar assim na casa dela, na vida dela. Ela as atraía, cuidava delas. Da gente. Minha vó era a alma daquela casa. Uma alma acolhedora, de braços sempre abertos e risada fácil e contagiante, que se ouvia de longe. Ela tinha muito senso de humor. Uma vida inteira seguindo o mesmo roteiro: chegávamos na casa dela, a gente entrava direto (a porta sempre destrancada) e ela vinha correndo e rindo de alegria e nos abraçava forte. Era sempre assim. Com o passar dos anos, ela não conseguia mais vir tão rápido: se estava nos fundos, demorava pra chegar, se estava sentada, demorava pra levantar. Chegou o dia em que ela não conseguia mais se erguer, estava numa cadeira de rodas, mas a alegria e a risada seguiam fortes. E então ela silenciou e era difícil demais entrar naquela casa e não ouvir a risada dela. Mas eu tive 40 anos de abraços e risadas. Que sorte a minha.
A salinha das visitas. Ela sempre sentava no canto esquerdo do sofá, pra controlar a loja, que ficava na sala ao lado. Tinha sempre banquinhos e cadeiras de praia a disposição quando tinha muita gente. Mas se fazia um dia bom, o lugar da conversa era na frente da casa, com as cadeiras de praia. E o chimarrão, sempre acompanhando. Fiz esse desenho em 2021, no meio da pandemia, quando a casa ficou sem visitas pela primeira vez.
A loja era de aviamentos “costura e borda”. Ela gostava de tricotar e eu tenho mantas e blusas com mais de 20 anos feitos por ela.

A casa dela foi comprada pelos meus bisavós, lá pelos anos 30. A história dos meus bisavó é interessante: se conheceram quando estavam perto dos 40 anos, ambos viúvos e cada um com muitos filhos. Juntos, eles tiveram apenas uma filha: a minha vó.
A casa é antiga, tem mais de 100 anos e era grande, foi até um hotel: o Hotel Itália. Foi dividida antes deu nascer, mas mesmo pela metade ainda é uma enorme casa. Ela ocupa meu imaginário com tanta intensidade que eu sonho que estou lá com muita frequência.
Ela faleceu na casa.
Existe muito conforto em lugares que não mudam. as mesmas xícaras, os mesmo móveis, as mesmas risadas e pessoas. A vida pode estar uma bagunça, mas você sabe que existe esse refúgio, que lá onde tudo permanece, você se encontra novamente.
Hoje caí nesse trecho do livro “The Lathe of Heaven” da Ursula K Le Guin:
You are afraid of losing your balance. But change need not unbalance you; life’s not a static object, after all. It’s a process. There’s no holding still. Intellectually you know that, but emotionally you refuse it. Nothing remains the same from one moment to the next, you can’t step into the same river twice. Life — evolution — the whole universe of space/time, matter/energy — existence itself — is essentially change… When things don’t change any longer, that’s the end result of entropy, the heat-death of the universe. The more things go on moving, interrelating, conflicting, changing, the less balance there is — and the more life.
Você tem medo de perder o equilíbrio. Mas a mudança não precisa te desequilibrar; afinal, a vida não é um objeto estático. Ela é um processo. Não existe ficar parado. Intelectualmente, você sabe disso, mas emocionalmente resiste. Nada permanece igual de um momento para o outro; não se entra duas vezes no mesmo rio. Vida — evolução — todo o universo de espaço/tempo, matéria/energia — a própria existência — é mudança. Quando as coisas deixam de mudar, esse é o resultado final da entropia: a morte térmica do universo. Quanto mais as coisas continuam em movimento, se relacionando, conflitando, mudando, menos equilíbrio existe — e mais vida.
A cidade da minha vó tem muitos cães de rua. O cemitério é um pouco afastado da cidade, mas obviamente tem sua própria gang canina: os guardiões do cemitério, 3 cuscos pretos. Infelizmente nos últimos anos eu tenho frequentado esse cemitério e já conheço os 3. Eles não incomodam ninguém, não latem, não fazem nada: só ficam ali na volta da capelinha, geralmente dormindo. Quando chegamos para o velório eles estavam lá. Mas tinha uma cachorrinha nova: quando a gente chegou ela pulou na porta do carro, quase dando boas-vindas, um comportamento totalmente diferente dos guardiães, que ficam sempre quietos e afastados. A Fina (eu a chamei assim, porque ela era muito magrinha e comprida) nos acompanhou faceira do carro até a capela e até entrou com a gente. Ela se posicionou bem embaixo do caixão e ali ficou, dormindo a noite toda e nos fazendo companhia. Apesar de ser dezembro, fazia um pouco de frio naquela noite. Tem um tapete na capela, provavelmente por isso ela ficou ali. Mas ela também me trouxe uma certa leveza: era reconfortante olhar para o caixão e vê-la ali com a vó. Quando amanheceu ela se espreguiçou, deu uma olhada pra nós e foi embora. Não se juntou aos guardiões do cemitério, ela foi embora e não a vimos mais.
De 2018:








Me emocionou profundamente. Meus sentimentos.
Sam, querida, meus sentimentos!