da minha mesa de desenho

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O tédio

cartinha 1 do Caderno Velho

mai 20, 2026
∙ Pago

Olá amigos!

Essa é a primeira edição do Caderno Velho: são textos, desenhos, rascunhos, fotos, etc sobre os perrengues e alegrias de criar uma HQ. Custa apenas 7 pilinhas por mês e os emails serão mensais também. A newsletter Da minha mesa de desenho segue gratuita, o Caderno é uma segunda newsletter dentro do meu substack. Espero que não se importem com o fato de ser um post fechado, aquela barreira no meio do texto é meio antipática… Mas ei, custa só 7 pila!

Esse é o Caderno Velho: uso pra fazer as anotações desse quadrinho. Foi o primeiro caderno feito pelo meu pai e está caindo aos pedaços (ele foi colado e não costurado como os que ele faz hoje em dia) e tem essa colagem horrorosa na capa, mas eu adoro ele porque é bem despretensioso. E porque foi o Beko primordial, hehe.

Então essa primeira edição vai ser sobre tédio. Como vocês estão? Entediados, eu espero! Mas é quase impossível se entediar hoje em dia. Você está numa fila no restaurante: dá uma olhada no instagram. Tá esperando uma reunião começar ou está numa sala de espera, a consulta sempre atrasa (médicos, aff) mas você tem um retângulo mágico com infinitas possibilidades de distração. Ou pior: você sai pra fazer caminhadas saudáveis porque odeia academia e já está numa certa idade e passa o dia desenhando, sentada em forma de C e precisa se exercitar mas eu ops você não sai de casa sem ouvir podcasts. Ah, mas é um podcast informativo, então tá tudo bem. É assim que eu justifico pra mim mesma não conseguir ficar um minuto sem algum estímulo. Estou assistindo youtube constantemente: ah, mas são vídeos sobre arte! (na verdade, eu assisto um monte de bobagem). Não tem nada de errado nessas coisas, lógico. Porém se você quer ter qualquer prática artística é preciso cultivar o tédio. Porque é preciso pensar e sentir pra criar qualquer coisa.

"A distracted mind is an unhappy mind"

“Uma mente distraída é uma mente infeliz” - o Dr K em vários vídeos no canal HealthyGamer

Eu tinha começado um outro texto sobre o processo da HQ, mas o que mais tem me consumido ultimamente é o vício em estímulos (telas) causado por ansiedade. Acho que é um assunto importante, porque muita gente está vivendo algo parecido, acredito. Eu digo pra mim mesma que falta tempo, porque trabalhos que pagam os boletos têm prioridade e no fim do dia eu estou muito cansada pra trabalhar em algo autoral. Tem verdade nisso, é claro, mas também sei que parte do meu cansaço vem do constante estímulo de rede social. Sim, porque ficar colado no celular vendo vídeos por horas causa cansaço mental, não apenas consome tempo.

Estou ansiosa porque estou viciada em telas ou a ansiedade me faz viciar em telas? É difícil ficar parado sem assistir ou ouvir nada porque juntamente com o tédio vêm eles: os terríveis SENTIMENTOS.

É compreensível que numa situação complicada a gente queira adormecer a mente. Porque se eu parar pra pensar a ansiedade e o desespero podem tomar conta.

É um alívio temporário. Mas além de obviamente não ser a forma saudável de lidar com o desconforto de sentimentos ruins a gente também não está criando, não está escrevendo, não está desenhando. Para criar é preciso sentir. Ou seja: ficar quietinho de vez em quando. Ficar entediado.

A gente é tão averso ao tédio que existe um estudo bem famoso sobre o pessoal preferir se dar choques do que ficar sentado sem fazer nada. Qualquer estímulo, até um doloroso, é melhor do que o tédio.

“Todos os problemas da humanidade vêm do cara não conseguir ficar sentado quieto sozinho num cantinho” Quem disse algo assim foi o Blaise Pascal, lá por 1660, pra você ver que o tédio já era uma dificuldade antes mesmo do instagram.

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